domingo, 2 de agosto de 2009

Conto - Putassanta

Esse conto escrevi há uns cinco anos, mas ainda gosto.

- Viu? Eu não te avisei que era em vão?

- Não foi em vão.

- Ah, não? E o que você conseguiu? Onde chegou?

- Na realidade.

- E que bela realidade!

A santa e a puta tinham muito para conversar. O que uma mais queria era ser a outra. Elas usavam armas diferentes, mas no fundo tinham o mesmo objetivo. A santa usava a segurança, e a puta, o desejo. A santa odiava o poder de sedução da puta, e a puta não suportava ver a felicidade emoldurada da santa. E elas sempre brigavam. A santa vigiava os passos da puta, e todas as vezes que a concorrente caía, ela sentia prazer em jogar sal na ferida. A puta era mais compreensiva. Não julgava a santa, até porque havia sido santa antes de cair na vida. A putassanta um dia saiu do lar ed mulher honesta e quis ver o que acontecia na rua. Quando se deu conta, estava envolvida demais com o prazer e não podia mais voltar para casa. Sentiu o sangue pulsando nas veias e não conseguia voltar a ter cara de paisagem. Mas a puta sentia uma saudadeinveja dos sonhos da santa. Desde que passou a se orientar pela pulsação, caiu numa realidade exagerada que lhe roubou os sonhos.

- Você desperta o sonho nos homens, mas não fica com nenhum para você. Eles vão embora e levam os sonhos com eles. Quem vive os sonhos sou eu. Eu tenho a família. Eu sou o porto seguro. As minhas lágrimas fazem com que ele sempre volte. Eu sou o compromisso, a certeza, o tangível.

- Você vive de migalhas.

- Migalhas que são minhas. E você vive com um pão inteiro que não é seu. Você não vive com nada de seu.

- Eu tenho a mim.

- E daí?

As palavras da santa davam chibatadas na puta. Se não bastasse fazer parte da escória da sociedade, tinha que escutar a condenação enunciada da santa. As palavras doíam pelo peso de verdade que continham, e, contra a verdade, a puta não fazia nada, nunca. E a puta sabia que o maior sonho da santa era ser puta alguma vez, então propôs:

- Use as minhas roupas esta noite. O seu marido vem me procurar neste endereço. Faça-se de mim. Disfarce e descubra o que ele busca dentro de mim. Não precisa responder, nem me contar. As roupas são essas. Use se quiser. Nunca vou te perguntar. E pode dizer a todos que quem estava lá era eu.

A puta saiu e santa pegou as roupas. Cheirou, e sentiu uma sensação de passado. Lembrou o tempo em que os lençóis de sua cama guardavam as marcas e os odores do prazer. Um tempo longe que sempre a atormentou. Desde que se tornou a família, os lençóis ficaram cruelmente limpos. E foi. Na hora marcada, o marido chegou. Ela estava deitada na cama. Ele se deitou ao seu lado, se aconchegou em seus seios fartos e começou a falar. Filosofou sobre a vida. Recuperou os sonhos. Falava em mudar de emprego, em sair da cidade. Lamentou aquela bolsa dede estudos no exterior que recusou anos antes. E falava segurando em seu seio. O corpo dela estava em brasa. Beijos sem pudor, carícias, palavras proibidas, e ele voltava a ser menino, entre sonhos e desejos. Ela guardava entre as pernas alguém que ele sempre quis ser. E a santaputa sentiu que ele estava mais dentro e perto do que nunca. Ela sentiu e deu prazer. Por um momento ela olhou dentro dos olhos dele, e viu a felicidade. Eles se viram gozando, cúmplices de uma total falta de pudor.

A santa nunca contou à puta o que aconteceu. Mas depois desse dia a raiva da santa foi multiplicada. Ela não podia ver a puta que lhe escapava uma agressão. Cada noite fria que passava em sua cama a fazia lembrar o dia em que amiga lhe deu a oportunidade de ser o que ela sempre quis. Mas a manhã chegava, as obrigações de santa começavam, e ela esquecia o dia de puta.

A puta continuava sem julgar a santa. Escutava cada uma das agressões, e selecionava as que tinham um alto grau de verdade. As que continham apenas mágoa ela descartava, porque aprendeu a sofrer apenas como que é real.

3 comentários:

Má... disse...

Excelente conto!

É duro julgar os outros, né? rsrs


bjim,

Má.

Vagner Luiz disse...

Mais uma vez emocionado com sua sensibilidade. Aprendi a admirar suas análises, frases, neologismos e tudo mais. Como diria Rubem "Ler é fazer amor com as palavras". Escrever é proporcionar este prazer. Obrigado pelas aulas, pelo incentivo e pelos textos deste bolg.

Helga Panzer disse...

Bom, a puta ganha pra fazer o que o homem quer, ele vai embora e ela não tem que lavar as roupas, economizar dinheiro junto, nada disso. A puta faz pq é da profissão dela.

A santa de repente não tá fazendo o que está a fim e ainda no final vai fazer a janta e limpar neném. Fácil pra puta falar, né?

É fogo...:-/